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Pipas

12/31/2012

Tão cedo quanto se supunha possível eu ergui um muro. Alto e imponente onde no topo, longe de todas as coisas, eu me sentava e soltava meus sentimentos como os meninos soltam pipas. Eu costumava soltar pipas coloridas e lindas. Mas agora o limo tomou os tijolos e posso sentir as injúrias ao caminhar, as mãos raladas nos cantos quebrantados. Vejo os recortes do outro lado desse meu muro e hesito em fuçá-lo. Ver o outro lado é o preâmbulo definitivo do colapso do lado de cá. Das luzes que me guiavam eu só fiz me perder e despistar e, agora, ficou a cegueira. Ou o ver o que não se quer ver – e nem quer ser visto. Andava nas nuvens e minha nuvem era alta. Sonhava alto demais. Achei que, dia após dia e pra sempre e sempre, veria minhas cores no céu. Minhas verdades. Hoje, não vejo as verdades, nem as cores, nem o céu. Infinito chega ao fim, sim. E o fim chegou pro meu infinito. E pras minhas verdades. E pras paredes entre as quais eu ergui meu reinado de certezas e de cores. O fim bateu à minha porta, eu demorei a atender. Demorei, então, a entender. Depois, a acreditar. E continuei não acreditando em uma porção de detalhes, aqui, de porta e boca abertas diante… Diante de quê? Foi o fim que veio, passou por mim e largou os destroços disformes e úmidos das minhas pipas coloridas, hoje só pontudos palitos e entulhos e amores não-ditos e essa gosma multicolorida do papel de seda e da minha coragem desbotando.

Que horas você volta?

12/21/2012

O relógio que foi um presente deixou de funcionar. Como uma metáfora sem graça da vida informando que o tempo deles acabou.

Tragédia semântica

12/12/2012

Ela grita:

– SOME!

E e ao invés dele somar, sumiu.

12/06/2012

Sentou por um minuto na calçada. Era um sábado. Quantos sábados teriam se passado desde que havia feito esta afirmação “hoje é sábado”? O dia era como um forno e sentia que sua carne cozinhava a medida que o tempo ia passando. Sentou por um minuto na calçada e acendeu um dos seus cigarros que já não fumava mais. Se lembrou de sua amiga que dizia que o amor é azulzinho. Riu. O amor, na verdade, é roxo. Como um hematoma.

12/04/2012

E parou no meio da rua. E pensou que a grandeza vem de pequenos começos.

E repetiu três vezes:

a grandeza vem de pequenos começos

a grandeza vem de pequenos começos

a grandeza vem de pequenos começos

E era meio-dia de uma terça feira de um ano bissexto de sol escaldante.

Do quotidiano sentimental

11/26/2012

ele escorre

escorreu

ex correu

hoje eu escorri

do ex corri

e agora estou

e

x

c

o

r

r

e

n

d

o

.

11/17/2012

não saio do lugar

corro, fujo

e estou sempre

aqui

dentro

de

mim