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1907 – Primeiras Tentativas

02/15/2013

Um filete de luz ilumina a sala ocupada tão somente pelo minúsculo cachorro e eu. Já é tarde mas mesmo assim eles invadem o cômodo. Fazem barulho, acendem as luzes. São estranhas criaturas que aparecem frequentemente por aqui. Os vejo sempre de passagem, balançam seus copos de um lado para outro durante algumas noites e em raros momentos enquanto ainda é dia. Me pergunto frequentemente se são naturalmente noturnos, diurnos ou se são simplesmente loucos. Certo estou de que convivem pacificamente. Geralmente aparecem em bandos de 3 ou 4, nem sempre os mesmos, às vezes sim. Muitas vezes, impacientes, gritam comigo apenas porque estou reclamando o meu direito de dormir em paz. Costumam passar algum tempo no escuro da varanda e rapidamente somem entre as suas gargalhadas, mas outras vezes assistem o sol acordar e continuam falando sem parar até que quando me dou conta um deles está imóvel demais no sofá. Devo dizer que odeio essas pessoas, elas me acordam frequentemente e gritam comigo mais frequentemente ainda. Ao menos são engraçadas em sua maioria. Peculiares. Firmam-se enquanto comunidade de forma muito interessante. Não possuem um líder ainda que sigam uns aos outros. Vivem em uma harmonia mirabolante e porque não miraculosa uma vez que são tão distintos, características marcantes e específicas borbulham nessas criaturas fantásticas. Há quem diga que são muitos parecidos, outros diriam que não é possível. Fico com a impressão de que conseguem ser iguais no que tange a necessidade de viverem juntos e se amarem, não fosse isso matariam-se. São muito musicais, me permito fazer esse tipo de observação já que raramente os vejo, barulhentos e musicais. Conheço suas vozes. Graves, finas, baixas. Revezam-se numa espécie de palanque imaginário dando espaço para todo tipo de absurdo, vezenquando discutindo coisas sérias. Recordo-me uma vez estar descansando e ser perturbado pelo grupo mais irritante que aparece por aqui: as fêmeas. Insuportáveis quando juntas, falam de coisas desagradáveis, riem alto demais, passam por mim infinitas vezes e gritam. Como gritam. Neste dia, porém, curiosamente estavam todas muito quietas e paradas. Não diria que tristes, mas caladas, um desânimo funesto e pouco comum. Alguma coisa estava fora do lugar. As horas foram passando e aquele silêncio doente foi contaminando o ambiente. Deitavam-se, levantavam-se, choramingavam baixinho umas com as outras. Lá pelas tantas o interfone grita. O cachorro grita, as mulheres gritam, até eu grito.

E então, o inesperado aconteceu.

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