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04/16/2013

Desatar nós.

Desatar-nos.

Cai chão

02/15/2013

Do nada, como quem não quer nada, eu tenho a dizer apenas que levei 22 anos de minha vida pra aprender a enterrar gente viva.

1907 – Primeiras Tentativas

02/15/2013

Um filete de luz ilumina a sala ocupada tão somente pelo minúsculo cachorro e eu. Já é tarde mas mesmo assim eles invadem o cômodo. Fazem barulho, acendem as luzes. São estranhas criaturas que aparecem frequentemente por aqui. Os vejo sempre de passagem, balançam seus copos de um lado para outro durante algumas noites e em raros momentos enquanto ainda é dia. Me pergunto frequentemente se são naturalmente noturnos, diurnos ou se são simplesmente loucos. Certo estou de que convivem pacificamente. Geralmente aparecem em bandos de 3 ou 4, nem sempre os mesmos, às vezes sim. Muitas vezes, impacientes, gritam comigo apenas porque estou reclamando o meu direito de dormir em paz. Costumam passar algum tempo no escuro da varanda e rapidamente somem entre as suas gargalhadas, mas outras vezes assistem o sol acordar e continuam falando sem parar até que quando me dou conta um deles está imóvel demais no sofá. Devo dizer que odeio essas pessoas, elas me acordam frequentemente e gritam comigo mais frequentemente ainda. Ao menos são engraçadas em sua maioria. Peculiares. Firmam-se enquanto comunidade de forma muito interessante. Não possuem um líder ainda que sigam uns aos outros. Vivem em uma harmonia mirabolante e porque não miraculosa uma vez que são tão distintos, características marcantes e específicas borbulham nessas criaturas fantásticas. Há quem diga que são muitos parecidos, outros diriam que não é possível. Fico com a impressão de que conseguem ser iguais no que tange a necessidade de viverem juntos e se amarem, não fosse isso matariam-se. São muito musicais, me permito fazer esse tipo de observação já que raramente os vejo, barulhentos e musicais. Conheço suas vozes. Graves, finas, baixas. Revezam-se numa espécie de palanque imaginário dando espaço para todo tipo de absurdo, vezenquando discutindo coisas sérias. Recordo-me uma vez estar descansando e ser perturbado pelo grupo mais irritante que aparece por aqui: as fêmeas. Insuportáveis quando juntas, falam de coisas desagradáveis, riem alto demais, passam por mim infinitas vezes e gritam. Como gritam. Neste dia, porém, curiosamente estavam todas muito quietas e paradas. Não diria que tristes, mas caladas, um desânimo funesto e pouco comum. Alguma coisa estava fora do lugar. As horas foram passando e aquele silêncio doente foi contaminando o ambiente. Deitavam-se, levantavam-se, choramingavam baixinho umas com as outras. Lá pelas tantas o interfone grita. O cachorro grita, as mulheres gritam, até eu grito.

E então, o inesperado aconteceu.

A similaridade do antagonismo

02/05/2013

Curioso pensar como perder é tão fácil e tão difícil.

02/04/2013

embora
faça força
pra ficar
o tudo
me força
a ir embora.
e agora?

Olhos no espelho

01/25/2013

E minha vida se tornou um teatro do foda-se.

A triste história da Pont des Arts

01/06/2013

Conheceram-se aos quinze. Ele não queria casar e ela sonhava ir à Paris. A maior coisa em comum que eles tinham era não ter nada em comum. Ele gostava de gatos, ela de cães. Ele preferia sol e ela amava a casa na serra da sua avó. Ele tomava café-com-leite e ela detestava café. E leite. Andavam por aí sonhando juntos pelos dias, gastando a sorte um no outro, amando desavergonhadamente. Aos dezenove desconfiou que estava grávida. Depois de um interminável dia culminado em um xixi num palitinho veio a confirmação: foi só um susto. E depois a revelação: ele disse que queria um filho. Mais de um até. Ela queria se casar e prender um cadeado na Pont des Arts em Paris. Aos vinte e três num escaldante fevereiro ela suou um belíssimo vestido branco rendado e ressoou um tímido sim na pequena igrejinha que a mãe dele fez questão de escolher. No dia seguinte entraram em um avião rumo a França, oui! oui! Qui n’aime pas la ville lumière? Beberam vinhos, comeram queijos, escorregaram na neve fina que cobria o chão parisiense e finalmente, numa tarde iluminada, ela prendeu o cadeado na grade da Pont des Arts. Um cadeado nem pequeno nem grande, com as iniciais deles gravadas separadas por um mais. Ele atirou a chave no rio Sena. Os anos se passaram e nada deu muito certo. Empregos falharam, conversas não aconteceram, as crianças não vieram e ela não queria um cachorro. A cada desentendimento ela imaginava se o cadeado que prendeu na ponte com tantos votos verdadeiros ainda estaria lá. Imaginou-o enferrujado, quebrado, torto. Depois pensou que um cadeado não deveria jamais ser o símbolo de uma união.  Que unir duas pessoas com um cadeado é condena-las para sempre a serem detentas si. E que nesse jogo de liberdade alguém sempre se rebela. Descobriu tarde demais que a verdade sobre o amor era uma só. Amar é abrir cadeados, não trancá-los. É confiar colocar o seu coração escancarado na mão do outro e dizer “toma, faz o que você quiser.”