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Amor Solidão.

06/23/2010

Eram duas. Joana e Raquel. Joana tinha pernas compridas, era esguia, quarenta e poucos. Raquel não era tão comprida assim, tinha uns 8 kgs mais do que necessário, pernas grossas, quarenta e muitos. Estavam sentadas no fundo do bar, naquelas mesinhas escondidas e mal iluminadas. Quase não falavam. Joana já havia fumado meio maço de seus cigarros longos e balançava seu pé embaixo da mesa. Raquel não sentia muitas coisas desde que seu último namoro mal sucedido acabara de forma trágica, e portanto, parecia anestesiada. Depois de uns quinze minutos de silêncio, Raquel falou:

- Ontem eu consegui chorar.

Joana nada disse. Tragou forte seu cigarro, soprou pra cima a fumaça e olhou fundo nos olhos de Raquel.

Elas eram amigas. Talvez melhores amigas, talvez mais. Conheciam-se desde sempre, e mais que isso, conheciam-se profundamente. Raquel sabia que quando Joana ia trabalhar de salto fino, era porque a noite tinha sido muito boa. Joana sabia que se Raquel tomava um café preto e forte na padaria antes de ir pra casa, era sinal de que uma enxaqueca de matar estava pra chegar. Eram assim, amigas, unidas por um fio invisível mais forte do que qualquer laço de sangue.

Raquel falou novamente:

- Eu sei o que você pensa. Você me acha uma imbecil. Eu não discordo de você. Eu sou uma imbecil. Ele me disse que não tenho amor próprio.

Foi quando Joana resolveu falar:

- Amor próprio? Baby, o que é amor próprio, diz pra mim? Pessoa nenhuma tem amor próprio. O que se sente é auto-piedade. As pessoas confundem muito isso. Dá pena, mas a vida é assim. Ferina, cruel, massacrante. Obriga as pessoas a ter esse tipo de sentimento. Senão a gente afunda. Mas me diz, amor próprio? Piada, amorzinho. Olhe a sua volta. Tudo aqui exala solidão. Eu. Essa mesa. Nossa garrafa. Amor próprio não é solidão não. Solidão é auto-piedade. Se amor próprio existisse a gente não tava aqui, na segunda garrafa de whiskey, no cigarrinho, na música ruim. Se amor próprio existisse você não ia ter cheirado aquele pózinho quando tinha 22, querida. Se amor próprio existisse eu não ia estar nesse barzinho de merda, toda apertada numa meia-calça querendo parecer menos acabada. Se amor próprio existisse as lojas de cosméticos estariam falidas e o Mac Donald’s não vendia mais uma batatinha frita. Amor próprio é o mesmo que andar com a alma nua. Raquel, quem é que anda com a alma nua? As pessoas mal sabem que tem alma. Vivem por aí tentando tapar os buracos de suas vidas com roupas boas, namorados mais jovens e crises de meia idade. Me poupe você e esse papinho de amor próprio. Seu amor próprio está aí nessa sua bolsa que custou cinco vezes o salário da sua empregada? Não, benzinho. Aí está a sua auto-piedade. Aí está você se agradando, porque adivinha? Sua vida está um cocô. Conforme-se e não se sinta um lixo. Amor próprio é só uma desculpinha esfarrapada que alguma mal amada, mal comida, mal-seja-lá-o-que-for inventou e sabe porque? Porque quando você repete dia após dia a mentirinha “eu me amo”, você na verdade só tenta se convencer de que não está sozinha, sendo engolida pelo mundo. Pois você está.

Raquel não disse mais nada, tampouco Joana. Raquel secou a lágrima que escorria tímida pelo canto do seu olho. Abriu sua bolsa que valia mais do que o salário da sua empregada, pegou um espelhinho, se arrumou. As palavras de Joana boiavam pesadas no ar, como a fumaça de seus cigarros que agora ocupavam todo o seu cinzeiro. Respirou fundo como se com isso, pudesse absorver cada frase afiada de sua amiga. Nada parecia ter lugar dentro dela. Nada parecia ter lugar. Eis a realidade do amor-solidão.

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