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Devaneios.

08/10/2010

Às vezes parece um tambor,
Mas não é tambor nem nada, é o coração.

Amor Solidão.

06/23/2010

Eram duas. Joana e Raquel. Joana tinha pernas compridas, era esguia, quarenta e poucos. Raquel não era tão comprida assim, tinha uns 8 kgs mais do que necessário, pernas grossas, quarenta e muitos. Estavam sentadas no fundo do bar, naquelas mesinhas escondidas e mal iluminadas. Quase não falavam. Joana já havia fumado meio maço de seus cigarros longos e balançava seu pé embaixo da mesa. Raquel não sentia muitas coisas desde que seu último namoro mal sucedido acabara de forma trágica, e portanto, parecia anestesiada. Depois de uns quinze minutos de silêncio, Raquel falou:

- Ontem eu consegui chorar.

Joana nada disse. Tragou forte seu cigarro, soprou pra cima a fumaça e olhou fundo nos olhos de Raquel.

Elas eram amigas. Talvez melhores amigas, talvez mais. Conheciam-se desde sempre, e mais que isso, conheciam-se profundamente. Raquel sabia que quando Joana ia trabalhar de salto fino, era porque a noite tinha sido muito boa. Joana sabia que se Raquel tomava um café preto e forte na padaria antes de ir pra casa, era sinal de que uma enxaqueca de matar estava pra chegar. Eram assim, amigas, unidas por um fio invisível mais forte do que qualquer laço de sangue.

Raquel falou novamente:

- Eu sei o que você pensa. Você me acha uma imbecil. Eu não discordo de você. Eu sou uma imbecil. Ele me disse que não tenho amor próprio.

Foi quando Joana resolveu falar:

- Amor próprio? Baby, o que é amor próprio, diz pra mim? Pessoa nenhuma tem amor próprio. O que se sente é auto-piedade. As pessoas confundem muito isso. Dá pena, mas a vida é assim. Ferina, cruel, massacrante. Obriga as pessoas a ter esse tipo de sentimento. Senão a gente afunda. Mas me diz, amor próprio? Piada, amorzinho. Olhe a sua volta. Tudo aqui exala solidão. Eu. Essa mesa. Nossa garrafa. Amor próprio não é solidão não. Solidão é auto-piedade. Se amor próprio existisse a gente não tava aqui, na segunda garrafa de whiskey, no cigarrinho, na música ruim. Se amor próprio existisse você não ia ter cheirado aquele pózinho quando tinha 22, querida. Se amor próprio existisse eu não ia estar nesse barzinho de merda, toda apertada numa meia-calça querendo parecer menos acabada. Se amor próprio existisse as lojas de cosméticos estariam falidas e o Mac Donald’s não vendia mais uma batatinha frita. Amor próprio é o mesmo que andar com a alma nua. Raquel, quem é que anda com a alma nua? As pessoas mal sabem que tem alma. Vivem por aí tentando tapar os buracos de suas vidas com roupas boas, namorados mais jovens e crises de meia idade. Me poupe você e esse papinho de amor próprio. Seu amor próprio está aí nessa sua bolsa que custou cinco vezes o salário da sua empregada? Não, benzinho. Aí está a sua auto-piedade. Aí está você se agradando, porque adivinha? Sua vida está um cocô. Conforme-se e não se sinta um lixo. Amor próprio é só uma desculpinha esfarrapada que alguma mal amada, mal comida, mal-seja-lá-o-que-for inventou e sabe porque? Porque quando você repete dia após dia a mentirinha “eu me amo”, você na verdade só tenta se convencer de que não está sozinha, sendo engolida pelo mundo. Pois você está.

Raquel não disse mais nada, tampouco Joana. Raquel secou a lágrima que escorria tímida pelo canto do seu olho. Abriu sua bolsa que valia mais do que o salário da sua empregada, pegou um espelhinho, se arrumou. As palavras de Joana boiavam pesadas no ar, como a fumaça de seus cigarros que agora ocupavam todo o seu cinzeiro. Respirou fundo como se com isso, pudesse absorver cada frase afiada de sua amiga. Nada parecia ter lugar dentro dela. Nada parecia ter lugar. Eis a realidade do amor-solidão.

Página Dois.

05/30/2010

Demoramos. Demorei. Lá se foram dois longos anos com dias curtos e dias longos e dias desperdiçados e dias aproveitados. Crescemos. Dois anos. Ainda desdentados e dependentes. Chorões. Mas já engatinhamos e, quem sabe, andamos com nossas próprias pernas. Corremos por aí e levamos tombos. Choramos, porque com dois anos, é tudo assim, na base do chororô. Gritamos e esperneamos, mas acima de tudo: sorrimos. Juntos, de mãos dadas.

Eu não saberia o que é amor sem você na minha vida. Mais uma página terminada, outra que a gente vira. Quantas mais virão? Torço para que muitas. Acima de tudo, não se esqueça: “eu te amo a perder de vista.”

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O meu destino é caminhar assim
Desesperada e nua
Sabendo que no fim da noite serei tua
Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva
(…)
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor vem me buscar
Vamos ceder enfim à tentação
Das nossas bocas cruas
E mergulhar no poço escuro de nós duas
Vamos viver agonizando uma paixão vadia
Maravilhosa e transbordante, como uma hemorragia

Borboleteando.

04/04/2010

Quem não gostaria de ser uma borboleta?

Que criaturas fantásticas são as borboletas! Vivas, intensas, pedacinhos esvoaçantes de felicidade em aquarela. Voam e avoam juntas protagonizando bailes de singular beleza, pra lá, pra cá, pra lá. Sempre com seus pares e suas vidas coloridas e aquela leveza de pluma, aliás, leveza de borboleta. Borboleta, que palavra! Graciosa, leve, que com um soprinho de nada bate as asas azul ciano, vermelho sangue, amarelo ouro. Que criaturas fantásticas são as borboletas! Dotadas de um destino mutável, há algo verdadeiramente mágico na transformação de uma lagarta. Fecham-se em crisálida, fecham-se para o mundo e de repente, como aparições, abrem suas asas majestosas e delicadas, como verdadeiras fadas.

E o que dizer das mariposas? Ah, sim, aquela prima feia das borboletas. Sem cor, sem nada. Provocadoras de arrepios e repulsa, nada mais são do que ex-lagartas. Pobres mariposas, tão injustiçadas. E ainda batizadas com crueldade: Mariposa. Porque não um nome tão gracioso como borboleta? Mariposas são o que são. Borboletas. É, isso mesmo. Mariposas são as fadas da noite, as bruxas. Vestem seu pretinho básico e saem por aí em busca de luz. Não colorem o dia porque não precisam de cor, vivem em destaque nas luzes das cidades. Andam só, mas quem não anda só? Mariposas são as borboletas rebeldes, elas não são pra casar. Se fosse uma mulher, a mariposa seria daquelas que coloca um salto agulha, um batom vermelho e voa. Voa pra onde quer, voa como quer.

Você pode querer ser uma Borboleta, não te culpo. Borboletas são belíssimas. Mas eu? Eu sou mesmo é Mariposa.

Se hoje o sol sair, eu te prometo o céu.

10/19/2009

Depois de uma noite em claro, um café com adoçante e 4 cigarros, ela havia escolhido o que dizer. Ele já estava 12 minutos atrasado. Que boa ideia, ela pensou. Olhou o relógio, abriu a bolsa, fechou a bolsa, abriu a bolsa. Pegou seu maço de cigarros, puxou um, apoiou-o no cinzeiro, já meio cheio sob a mesa. Apoiou a testa nas mãos. Absurdo, ela pensou. A-B-S-U-R-D-O. Como ela havia marcado aquele encontro? Se ela soubesse que 12 anos e 3 drinks fariam isso com ela, ontem ela teria escolhido não sair de casa. Calma, Tereza, calma. Se ele não aparecer você simplesmente pede um vinho e o couvert e posa de solteirona com dignidade. Claro, porque tomar um vinho sozinha, aliás, acompanhada por torradinhas sem graça e patê de ervas finas, é o maior exemplo de dignidade. Toca o celular. Abre a bolsa, revira tudo, merda de bolsa enorme, cadê? CADÊ? “Alô?!” Ótimo. Atenda o telefone com voz de desespero sim, quem sabe ele ainda não tenha desistido desse encontro estúpido. “Oi. Tá, tá tudo ótimo. Ah, tudo bem. Não, não, não tem problema. Cheguei tem uns 5 minutinhos só. Não se preocupa. Tudo bem. Um beijo.” Tá tudo ótimo. TÁ TUDO ÓTIMO? Não, não tá nada ótimo. A cada minuto que passa, a sensação de abandono se multiplica. Acende o cigarro, pede outro café. Pelo menos ele justificou o atraso. Trânsito, sabe como é? Cinco da tarde é sempre muito complicado. Ela sabia. Cinco da tarde dos últimos muitos anos tinham sido terrivelmente complicadas. E as quatro da tarde também, e as tres e a qualquer hora do dia em que ela se olhava no espelho e só o que podia ver era a Tereza ficando velha, com os dentes amarelados e o cabelo crespo. Ontem não. Ontem, depois de muito tempo, ela se olhou no espelho da boate e viu finalmente uma mulher madura, amadurecida, pelo tempo, pelas mágoas. Ontem, depois de muito tempo ela o havia reencontrado. Barba por fazer, assim, que passa pelo pescoço e arrepia. Aquele grisalho sexy e o perfume, sempre o mesmo. O que por dias contaminou seus travesseiros e lençóis e sua pele. Ainda se olhando no espelho da boate, sorriu. E ainda que seus dentes estivessem sim meio amarelados, seu sorriso não estava. Apagou o cigarro. Pegou na bolsa seu blush e começou a arrumar os cabelos no pequeno espelho. Como que por mágica, o viu no reflexo. Blusa social, que bom. Não coloquei esse scarpin terrivelmente apertado a toa. “Oi“. Beijinho pra lá, beijinho pra cá. Ele se sentou no banco do bar e, antes mesmo de olhá-la nos olhos, olhou o cinzeiro. “Não vai largar esse mau hábito nunca?” E riu. Riu aquele sorriso dele. Aquele sorriso que deixava alguma coisa dentro dela muito quente. “Pois é, tô diminuindo“. Que bela maneira de se começar, com uma mentira descarada. “E então, quer beber alguma coisa, um vinho talvez?“. “Pode ser, mas por favor, doce não, me dá dor de cabeça.“. Ele riu de novo, mas dessa vez um sorriso malicioso, cheio de más intenções. “Mas então, Alberto, frente a frente de novo…“. “É Beto. E sim, parece que a vida planejou nos esbarrar por aí“. Sorriso. Sorriso maldito, desconcertante. Era ali, era agora. Golada no vinho. “Sabe Beto, sei que o nosso tempo passou. Sei que você casou com a Virgínia e não comigo. Sei também que você se mudou pra Londres por conta da separação. Mas Beto, não posso esperar mais 12 anos pra dizer. Alberto, Beto…” O tempo parou. Naquele momento cada pessoa do restaurante parou. Até a chuva que caía sem parar, parou. “… Beto eu simplesmente desejei que a vida me esbarrasse com você nos últimos 12 anos. Cada dia desses 12 anos, cada hora. E justo ontem, Beto, justo ontem que eu não desejei, que eu nem sequer pensei em você, você me aparece…“. Ele levantou os olhos do copo. Olhou pra ela, piscou uma, duas, tres vezes. Abriu a boca, fechou. Sorriu. “Eu realmente não sei o que dizer, Tê…“. “Viu Beto, esse sempre foi nosso problema, desde que éramos só, você sabe, um projeto de casal. A gente sempre deixava pra dizer as coisas quando já não tinha mais tempo.“. “Tê, você sabe. Você sempre soube tudo o que eu queria dizer pra você. Sempre.” Acendeu mais um cigarro, tragou com força. “Tudo o que, Beto? O que? Tudo que eu sei era que a gente era tudo que eu sempre quis. Tudo que eu sei é que você me largou, Beto. Tu me largou e sabe disso.”. “Eu fui um fraco, Tê.” Ele segurava o copo e o vinho tremia dentro dele. “Foi. Você foi um merda. Você me deixou esperando por mais de 10 anos Beto, e porque?“. “Nunca pensei que você me amasse tanto assim…“. Olhou pra ele, olhou pra dentro dele. Sentiu uma lágrima escorrer do seu olho esquerdo e sabia que naquele momento, naquele exato momento a montanha de amor que ela sentia, havia virado avalanche, e ela tava soterrada. “Você quer saber de uma coisa, Alberto, BETO?“. Ele fitava seu rosto com uma mistura de amargura e curiosidade. Ela abriu a bolsa, revirou, foi colocando tudo numa pequena pilha sob a mesa. Chaves, blush, celular, carteira, hidratante, óculos. E depois de uns dois minutos ela tirou um papel amarelado do tempo. Um papelzinho, aquele papelzinho, que dava sentido a tudo que ela queria dizer, mas a raiva não deixou. Ela entregou o papel pra ele. “O que é que diz aí Beto?“. Ele desdobrou o papel.

“Rio, 14 de março de 1997.

Se hoje o sol sair, eu te prometo o céu.

Tê”

Olhou pra ela. “Tereza, Tê…“. “Eu sei Beto. Eu compreendo que você não tenha o que dizer. Você nunca tem.” Ele respirou fundo, colcou a mão em cima da dela e apertou. “Eu sempre amei você Tê. Eu casei com a Virgínia por puro impulso, por estupidez. A gente vivia brigando, você tem que entender…“. Ela tirou a mão. “Eu não tenho que entender nada não. E nem você tem que explicar. Você fez suas escolhas e eu, me agarrei em todo amor que eu tenho, em todo amor que eu tinha pra continuar vivendo. O que eu precisava fazer eu fiz, Beto. Eu toquei minha vida, eu capenguei e eu guardei durante anos o maior amor do mundo. Guardei durante anos isso que eu tô colocando pra fora hoje. Coloquei. E tudo que você tem pra me dizer é que não sabia que eu te amava tanto. Sabe Beto, foda-se. Se você não foi capaz de enxergar o amor astronômico que eu tive por você, talvez seja porque você nunca o mereceu.” Enxugou as lágrimas, terminou o copo de vinho e acendeu mais um cigarro. Beto estava prostrado, parecia uma samambaia e seu sorriso já não tinha mais aquela luz. A dor que Tereza carregou durante anos se dissolveu no ar. Ele quebrou o silêncio. “E agora Tê? O que que a gente faz?“. “Tem uma caneta aí Beto?”. “O que??”. “Uma caneta, você tem uma caneta?“. Ele mexeu no bolso da camisa e tirou uma pomposa caneta dourada onde estava gravado Dr. Alberto Fernadez. Entregou a ela. Ela pegou o guardanapo molhado e manchado de maquiagem. Escreveu, dobrou e entregou pra ele junto com a caneta. Sorriu, um sorriso doído mas aliviado. Descalçou os scarpins, disse pro garçon que o rapaz ali pagaria a conta e saiu pela porta do restaurante, sumindo entre a multidão de guarda-chuvas. Ele desdobrou o papel, ainda em transe com aquela sequencia de acontecimentos. E leu:

“Rio, 27 de setembro de 2009.

Amor não resiste a tudo, não.
Amor é jardim. Amor enche de erva daninha.

Tereza.”


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O texto é meu. Os bilhetes são trechos de Caio Fernando Abreu, gentilmente roubados do twitter dele @caiofabreu . E como quem posta no twitter dele não é Chico Xavier, que os devidos creditos sejam dados. Quem twitta por ele é a Mary .

Beijo.

Confesso.

08/31/2009

Confesso que eu sinto uma vontade delirante de amar!
Acontece que eu ainda sou babaca, pateta, e ridícula o suficiente para estar procurando o verdadeiro amor. Pra ele me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.

Desencontro.

07/24/2009

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis
Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu.

Chico Buarque de Amor.

Meu Coração.

06/22/2009

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “Im too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração teu.

Página Um.

05/28/2009

A minha primeira página é sua. É sua porque se não fosse sua, não ia ser de mais ninguém. Se a minha vida fosse um livro você seria aqueles capítulos do meio pro fim, aqueles capítulos que fascinam quem os lê, que os prende. Se minha vida fosse um livro você seria um daqueles personagens incríveis, não o mocinho que salva aquela mocinha songa-monga que só chora e grita a história toda. Não, você seria aquele personagem arrebatador, que cosquista a mocinha songa-monga com um olhar cafageste e uma dose de conhaque. Se minha vida fosse um livro no estilo faroeste, você certamente seria aquele personagem que rouba o banco e ainda sequestra a mulher do dono do Saloon, agarrando ela pela cintura e colocando-a em cima do lombo do cavalo. E se fosse um livro no estilo Agatha Christie, você seria a velhinha dona da floricultura – que assassina a galera a tesouradas – mas de tão meiga, está sempre acima de qualquer suspeita. Se minha vida fosse um livro dramalhão, com certeza você seria o motivo de todo o drama: o amante, a herança milionária, a mãe que não é mãe de verdade e faz a bombástica revelação no leito de morte. Se minha minha vida fosse um livro de amor piegas, você seria a tarde na praia deserta com o pôr do sol.
Não é que toda a minha vida se resuma a você, mas é que sempre vai haver mais um espaço nela, com um capítulo dedicado só a você. A você que me surpreende, que me prende, e que me faz perguntar todos os dias como é que eu podia saber o que era felicidade antes de ter você na minha vida?
Que a nossa hitória continue sendo escrita, que chegue ao milésimo capítulo, e que nunca pare de nos surpreender. Te amo. Muito. Fim.

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